segunda-feira, 5 de maio de 2014

Meu erro

Eu não acreditei. Difícil imaginar que eu despertaria seu interesse. Logo eu. Depois, brinquei de não saber. Ignorei o que eu sentia. Disse não, quando, na verdade, meu corpo gritava sim. E agora vou carregar pelo resto da vida a saudade de um futuro nunca vivido. Tudo por causa de um medo que já não existe mais.

sábado, 3 de maio de 2014

Sorte

Com um pouco de sorte, você consegue uma boa nota naquela prova de matemática, achar dinheiro perdido, encontrar o par da meia que está misturado com as roupas, não pisar em cocô de cachorro, não derrubar seu celular enquanto desce a escada. Com um pouco de sorte e atenção você consegue passar de primeira no exame de direção, aprender a tocar violão, cantar toda aquela música em francês, aprender latim, dançar um tango argentino. Com um pouco de sorte e dedicação, consegue amigos para a vida inteira, aprender corte e costura, escrever uma canção, conseguir um emprego bacana. Com um pouco de sorte talvez consiga que seu amor seja correspondido.

Esquerdo

Perto da casa em que morava quando criança havia um rio. Íamos até lá todas as tardes. O rio que passava perto de casa é uma de minhas melhores lembranças. Meu cachorro costumava nadar conosco. Eu nunca aprendi a nadar. Mas meu cachorro sempre soube – disso. Era mais fácil viver. Não havia isso de existencialismo. As coisas são menos caóticas quando não se pergunta “por que”, sabe? A naturalidade agora provoca susto. Sou uma criança assustada. Assim mesmo, fora do eixo temporal. Foi lá também que quebrei o braço direito. O sangue escorria e deixava marcas na areia. Um longo caminho pontilhado de vermelho até a casa amarela e grande. Até mesmo essa memória não é ruim, porque não é tátil. Ela é visual. E vermelho é cor bonita de se ver. Vai ver seja por isso que a vida desandou pra mim. Eu que sou destra, nunca compreendi viver assim do lado esquerdo.

domingo, 24 de novembro de 2013

Labirinto

Comecei sem nem mesmo me dar conta de que era jogo sem volta. Eu não sabia como voltar. (Há meio de fazê-lo?). O fato é que entrei neste labirinto de signos e discursos maliciosos. Num dado momento do jogo, supus conhecer aqueles que me acompanhavam.  Tomei parte em muitas brigas. Fui parte de tantas outras. No final, descobri que tudo não passava de um teatro de arena. Bonito teatro. Convincente. Comovente. Mas apenas isso: um circo armado. Uma pena. Quereria eu viver algo mais do que encenações. Entretanto a realidade pode pintar algo mais brutal e menos poético. Talvez eles estejam certos quanto ao teatro de arena. Talvez seja melhor aceitar meu papel de coadjuvante e viver intensamente a farsa. “Não fosse isso, e era menos”, Leminski me ensinou. Num mundo como o nosso, as possibilidades são deveras egoístas. Aprendi a ser mais flexível. Talvez pouco mais racional. Mas a poesia diária é o que me salva... às vezes, de mim mesma.