sábado, 3 de maio de 2014

Esquerdo

Perto da casa em que morava quando criança havia um rio. Íamos até lá todas as tardes. O rio que passava perto de casa é uma de minhas melhores lembranças. Meu cachorro costumava nadar conosco. Eu nunca aprendi a nadar. Mas meu cachorro sempre soube – disso. Era mais fácil viver. Não havia isso de existencialismo. As coisas são menos caóticas quando não se pergunta “por que”, sabe? A naturalidade agora provoca susto. Sou uma criança assustada. Assim mesmo, fora do eixo temporal. Foi lá também que quebrei o braço direito. O sangue escorria e deixava marcas na areia. Um longo caminho pontilhado de vermelho até a casa amarela e grande. Até mesmo essa memória não é ruim, porque não é tátil. Ela é visual. E vermelho é cor bonita de se ver. Vai ver seja por isso que a vida desandou pra mim. Eu que sou destra, nunca compreendi viver assim do lado esquerdo.

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