Perto da casa em que morava
quando criança havia um rio. Íamos até lá todas as tardes. O rio que passava
perto de casa é uma de minhas melhores lembranças. Meu cachorro costumava nadar
conosco. Eu nunca aprendi a nadar. Mas meu cachorro sempre soube – disso. Era mais
fácil viver. Não havia isso de existencialismo. As coisas são menos caóticas
quando não se pergunta “por que”, sabe? A naturalidade agora provoca susto. Sou
uma criança assustada. Assim mesmo, fora do eixo temporal. Foi lá também que
quebrei o braço direito. O sangue escorria e deixava marcas na areia. Um longo
caminho pontilhado de vermelho até a casa amarela e grande. Até mesmo essa
memória não é ruim, porque não é tátil. Ela é visual. E vermelho é cor bonita
de se ver. Vai ver seja por isso que a vida desandou pra mim. Eu que sou destra,
nunca compreendi viver assim do lado esquerdo.
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