sábado, 31 de agosto de 2013

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ausência - Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho desta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
O que eu queria mesmo agora era ter a oportunidade de fazer tudo de novo. Como isso não é possível, queria somente que você acreditasse no que eu sinto. Já seria o suficiente. 

E se não fosse pedir demais, ficar com você, provar o seu beijo, dormir ao seu lado. Como nos velhos tempos, rirmos juntos, talvez viajar, fotografar. Deixar-me fotografar por você. 

Permitir-me. Entregar-me ao que sinto, sem titubear, sem medos tolos, sem timidez. Somente uma vez pensar que eu mereço a sua atenção. Deixar-me ser sua. Se quiser, somente sua. Prometo. 

Quem sabe um dia, quando eu puder sentar ao seu lado sem medo, eu possa falar o quanto é ruim ficar sem você. 

Mas eu, como sempre, fiz tudo errado. Você sentiu medo e insegurança. E agora foge de mim. Talvez pra sempre. E além de perder um amigo, eu perdi a chance de amar de verdade. Sem máscaras. Sem mentiras. Porque você me conhece desnudada de todas as convenções sociais, porque você sabe como sou e o que sinto. Embora não acredite quando digo que quero ficar ao seu lado. Somente enquanto fosse bom. Enquanto durasse o querer. 

Sinto. Sinto muito não ter feito ou dito nada antes. Sinto. Sinto que você fará falta. Sinto que há um pedaço de mim que falta. Falta você. Você e eu.

Medo de Amar no. 2 - 1980

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

E eu aqui pensando que você pudesse me entender.
(des)ligada.
"Depois de ter você, poetas para quê?"
quem nunca desejou
você
não sabe o que é 
deserto
Saudade é quando
nem a música serve.
Ele entrou pela porta dos fundos. Era domingo de manhã. Não me deu oportunidade de pedir explicações. Apossou-se dos meus livros, discos, DVDs. Aos poucos fui me acostumando com aquela figura que perseguia os meus passos pela casa. Líamos juntos, assistíamos ao meu seriado favorito. Ele dormia no meu quarto. Distante. Muito distante de mim.

Até que um dia, decidiu ir embora. Deixou-me uma carta. Vou-me porque já não a desejo mais por perto. Por favor, saia de minha casa. Não sei quando nem por que você decidiu entrar, mas assim que eu voltar de férias, quero minha vida de volta. 

Agora já não sei o que faço com a ilusão.